Dois pesquisadores sorocabanos – Geraldo Bonadio e Gisele Aparecida Tomé – concluíram o trabalho de restauração do texto de Na feira de Sorocaba, peça teatral de Francisco Luís d’Abreu Medeiros, editada no Rio de Janeiro em 1862, pela Tipografia Laemmert.
Daquele documento, um livro com pouco mais de cem páginas, existem apenas dois exemplares conhecidos: o do Museu Histórico Sorocabano e o da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
Bonadio, pesquisador do ciclo do tropeirismo, e Gisele, especialista na restauração de textos com o uso de ferramentas digitais, partiram da cópia xerográfica do exemplar do MHS, feita pelo primeiro há quase trinta anos, quando aquela instituição era dirigida pelo museólogo Adolfo Frioli.
Já aquela época, o original estava muito desgastado, em razão do armazenamento em condições inadequadas à preservação do papel. Além da lombada e das laterais, muitas páginas estavam quebradas ou apresentavam rasgos e dobras na mancha impressa.
Na época, os recursos das copiadoras xerográficas eram limitados. A leitura era cansativa em todas as páginas e, em algumas, quase impossível. Isso levou Bonadio a deixar o material de lado, durante um longo período.
No texto de Nas feiras de Sorocaba, além de clarear as páginas, para eliminar as manchas escuras do original e as ocasionadas pelas próprias cópias xerográficas, restabelecendo o contraste entre o texto (mancha impressa) e o fundo branco, Gisele Tomé restaurou a integridade páginas partidas, dobradas ou rasgadas e preencheu dezenas de vazios, naquelas em que o texto simplesmente desaparecera.
Isso exigiu a digitalização dos fragmentos xerocados e a união dos vários pedaços, nos casos das páginas partidas ou rasgadas, numa “colagem” digital.
Mais complicado ainda foi resolver o problema das palavras ou frases sumidas. Depois de mapear essas falhas e identificar as letras, palavras ou trechos faltantes, ela preencheu as lacunas com “recortes” da mesma letra, palavra ou frase em outro ponto da obra. Em vários casos a palavra sumida foi remontada com recortes feitos letra a letra.
“Em algumas páginas foi necessário fazer mais de 70 correções textuais através do tratamento de imagem, pois não é possivel alterar o texto de uma imagem como se fosse um texto no word.” – conta ela.
Duas versões e material complementar num único DVD
Restaurada a obra, o passo seguinte será a sua reedição sob a forma de livro virtual, com o texto acrescido de informações sobre o autor e uma análise da importância da obra. Num segundo momento, será feita uma edição em ortografia atual, que manterá, porém, a estrutura gráfica do original.
Com os recursos digitais hoje disponíveis, as duas versões podem ser inseridas num único DVD ou, talvez, até num CD, barateando notavelmente o custo da publicação.
Ficará ao leitor a opção de imprimir os trechos de seu interesse, o texto todo ou a de simplesmente ler e estudar a obra na tela de seu computador.
Geraldo Bonadio foi o autor de todas as etapas de planejamento do projeto de digitalização de exemplares publicados durante mais de cem anos por um jornal da cidade. Gisele Tomé supervisionou a execução daquele trabalho e de toda a cadeia de atividades para limpar os jornais, exemplar por exemplar, digitalizá-los e armazenar os originais em papel em ambiente capaz de frear sua deterioração.
A cidade tem assistido, em anos recentes, o relançamento de edições facsimilares de publicações antigas, em que o editor parte um texto em razoável estado de conservação. Trata-se de um trabalho valioso para pesquisadores e estudiosos.
A recuperação da obra de d’Abreu Medeiros foi bem mais complicada. O original não estava à mão, a cópia xerográfica era antiga e ruim e várias páginas tiveram de ser remontadas na tela do computador para tornarem-se legíveis.
Segundo os autores, é o primeiro trabalho do gênero executado em um livro de autor sorocabano.
Uma obra essencial para entender as feiras de muares
“No início da segunda metade do século XIX, conta Geraldo Bonadio, o teatro no Brasil engatinhava e a maioria dos dramaturgos, fora das grandes cidades de então, eram amadores. Escreviam um texto que editavam às suas custas, vendendo exemplares antecipadamente mediante subscrições. A peça geralmente era encenada pouquíssimas vezes, não raro uma só, por amadores da cidade em que o autor vivia.
O texto de d’Abreu Medeiros, por tratar de uma realidade nacionalmente conhecida – a feira de muares, realizada anualmente em Sorocaba – teve um destino diferente. Foi encenada, além de Sorocaba, em Piedade, Santa Catarina e, na inauguração do teatro de Uberaba (MG), coisa que o pesquisador descobriu ao resenhar, em 1980, um livro do autor sul rio grandense Lothar Hessel, para a revista de cultura Convivium.
Na vasta produção literária do escritor, levantada pelo saudoso historiador Rogich Vieira, Na Feira de Sorocaba é a obra mais importante.
O enredo é romântico e previsível, há falhas na construção do personagem principal, mas a primorosa captação da linguagem da época, o retrato sem retoque dos tipos e o registro do dia a dia da cidade durante as feiras fazem daquela obra, um documento único.
D’Abreu Medeiros documenta, também, os mecanismos de financiamento utilizados pelos que vinham a Sorocaba adquirir tropas, na quitação de seus débitos com o fisco. Registra, assim, a mudança do papel desempenhado na feira pelos sorocabanos, que transitam da condição de adquirentes e vendedores de muares xucros para a de financiadores dos negócios aqui realizados.
Como o cidadão que, munido de um celular com câmera fotográfica, ao transitar pelas ruas colhe flagrantes de acontecimentos importantíssimos, o escritor registrou, em sua peça, o nascimento dos mecanismos financeiros naquele que era, à época, o evento comercial mais importante do Brasil.