A aterrissagem foi tranquila e a emoção de chegar foi melhor ainda. A chuva molhava a pista nos trazendo um pouco de preocupação, mas quando soprou o ar quente da noite cearense me senti como criança que vai brincar na chuva.
O primeiro mico aconteceu! Ao pegar a nossa mala comprada a prestação na 25 de março em Sampa, fomos interpelados por um casal de uns 30 anos com o pedido de verificação da mala pois a deles era igual, igual não, era irmã gêmea e fiz uma piadinha “só falta ter comprado na 25 também!”. Eles pegaram a mala deles e sumiram sem falar nada. A Ana, sempre atenta, estava rindo “como é que você fala isto pro cara? Ele está com roupa de grife!” (camiseta e calça jeans da Levis). Pode ser que a roupa fosse de grife, mas que a mala era da 25, isto era!
O aeroporto é moderno e o desembarque aconteceu muito rápido. Ao descer um guia receptor da CVC indicava o nosso ônibus “vai no meia um, vai no meia um”. Descobrimos que “meia um” era o final da numeração do ônibus. O guia receptor que nos levou para o hotel se apresentou contando algumas piadas já conhecidas e nos assustando um pouco com relação à segurança da capital cearense. Indicava onde seria mais seguro e quais cuidados tomar. Fortaleza é uma cidade grande, quarta maior capital do país e como tal apresenta contrastes sociais muito grandes. No final da viagem ficamos com a impressão que eles nos falam da insegurança para vender os pacotes de passeios, pois passam sempre a ideia de que estando com eles estaremos seguros e que alugar carro é perigoso, pois os carros são visados, etc. Descobrimos algumas coisas interessantes a respeito do guia de nome Leal, ele se apresentava todos os dias falando um verso acróstico com seu nome (se tornou cansativo no segundo dia) e declamava de memória vários versos de poetas cearenses (coisa interessante!). Reclamou que os turistas não estão interessados na história e sim nas praias e em compras. Descobrimos também que estes receptores são terceirizados pela CVC, tendo na venda de pacotes o seu único sustento.
O Hotel Iracema é simples e o quarto é espaçoso. O que é chamado de studio é composto por uma sala grande com TV e, duas poltronas confortáveis e sacada com frente para o mar, no corredor que liga a sala ao quarto existe uma pequena cozinha com pia, armários e frigobar, o banho é simples com muita água e uma “lamparina”. No entanto, faltavam fronhas nos travesseiros quando chegamos, problema logo resolvido. Em outras ocasiões eles levavam as toalhas usadas e não traziam as limpas, sempre uma ligação resolvia o caso, mas é desagradável descobrir a falta das toalhas no meio de um banhão de lua-de-mel.
As poucas coisas presentes no frigobar têm preços normais (R$ 2,50 a cerveja Antártica de latinha e a castanha de caju), mas o espumante que prometeram por ser viagem de núpcias não veio, nem depois de 3 reclamações. A outra parte do brinde foi cumprido, nos colocaram a disposição dois studios, um no nono andar e um no décimo quarto. Escolhemos o do nono andar por causa da varanda, mas ficamos com a impressão de que o do 14º seria mais silencioso. Por estar localizado no centro boêmio da cidade, o som dos bares lhe acompanha a noite toda. A melhor opção nos pareceu fechar tudo e ligar o condicionador de ar, mas a posição em que foi instalado o aparelho faz com que ele sopre diretamente no seu rosto (não é legal!), resolvemos parcialmente o problema dormindo nos pés da cama e cobrindo os pés, deu certo, mas o travesseiro caia no chão. Pelo preço e localização do hotel achamos que estas falhas são normais. O que de melhor tem o Iracema é a localização para quem quer conhecer o centro histórico de Fortaleza, ele é perto de tudo e não precisa de condução para quase nada, apenas a avenida Beira-Mar é um pouco longe (uns quatro quilômetros) para quem não é adepto a caminhadas. Nós fomos e voltamos a pé mesmo, mas se preferir dá para usar o transporte coletivo com passagem a 1,60 (não sobe há vários anos).
Depois de um sono breve e de um café da manhã na cobertura com uma vista sensacional de grande parte da orla e do centro, fomos passear nas cercanias do hotel para conhecer o lugar. Na nossa chegada percebemos que o lugar é bastante agitado na madrugada e conta com a presença de prostitutas de baixa idade, meninas mesmo, agora percebemos que durante o dia não muda muito. Conhecemos a Ponte dos Ingleses - um píer construído por mercadores ingleses para a descarga de mercadorias e restaurado em parte. Esta é uma característica da navegação local, como existe um recife muito grande logo a frente, as embarcações entram pelas laterais - a praia é rasa obrigando a construção de longos piers mar a dentro para a atracação de barcos pequenos que faziam a descarga das mercadorias. Hoje o porto recebe navios de grande porte e um longo píer foi construído ao lado de um parque eólico. Fomos abordados também numa nova modalidade de conquista de fregueses para empreendimentos: você conhece o empreendimento, preenche um cadastro e ganha o almoço (é apenas uma mesa de frios, mas de graça ...).
Às onze horas saímos para o city-tour, em companhia do grupo inicial do ônibus 61, o passeio se constituiu de uma passada pela Orla (avenida Beira-mar), Porto, Praia do Futuro, Bairro das Dunas, Memorial Castelo Branco, construído em homenagem ao ex-presidente cearense (primeiro da ditadura militar implantada pela revolução de 64) e parada para um almoço no Tia Nair, um restaurante simples bem no início da Beira-mar, onde comemos uma peixada e duas cervejas (600ml) por 36 reais. Após o almoço nos dispersamos do grupo e, principalmente, do guia, para poder caminhar pela avenida Beira Mar. Assustamos-nos com o vento que de tão forte até tirava o cabelo da Ana do lugar. Existem prédios com uma arquitetura que chamaríamos de escada (parece o do filme “Meu Tio”, do francês Jacques Tati), não têm uma fachada reta, mas em degraus, alguns muito estranhos. Estranhos também os relógios marcadores de consumo de energia, eles ficam do lado de fora das residências, às vezes até mesmo no poste em frente. Depois de andarmos bastante, chegamos até um Centro Cultural chamado Dragão do Mar localizado em uma área de prédios muito bem restaurados, encantadores. Logo na entrada um imenso painel em pastilhas de Aldemir Martins nos dá as boas vindas.
Havia uma exposição sobre o movimento artístico Madi que não fotografamos, uma que não resisti de um escultor chamado Brennand (adorei a série cabeças) e uma outra sobre o cangaço, com fotos, objetos e filme sobre o assunto. As obras para a exposição Madi (Materialismo Dialético) foram cedidas pelo Museu do Crato, aí eu procurei no mapa e Crato fica no sertão. Museu no sertão? Ficamos convencidos que tem muita coisa para se conhecer por aqui assim que nos despirmos dos preconceitos. A exposição sobre o cangaço exibia imagens feitas por um fotógrafo libanês que foi secretário do Padre Cícero. Chamou-nos a atenção, a troca de modelo dos chapéus que ocorre durante o período das fotos, no início homens e mulheres usavam chapéus semelhantes e no final os homens ostentavam o chapéu típico de aba levantada para mostrar os símbolos do bando, no caso do chefe do bando porque os demais não possuíam ornamentos. Maria Bonita chama a atenção por se deixar fotografar por vezes como uma dama francesa e por outras como cruel cangaceira, uma dualidade a se estudar. Na saída nos deparamos com muitas crianças brincando como acontece no Sesc de Sorocaba e aí outro mico: compramos uma pipoca daquelas japonesas, mas ela era salgada, juro que tentamos comer, mas foi impossível, acabamos jogando no lixo. Compramos mapas, guias e literatura de cordel na livraria do Dragão do Mar, depois descobrimos ser o melhor lugar em variedade e preço.
Dragão do Mar era o apelido de um ex-escravo que possuía uma frota de barcos e trazia os escravos dos navios negreiros ancorados antes do recife. Um dia ele decidiu não trazer mais escravos e este ato provocou um reforço aos abolicionistas terminando pela declaração da abolição da escravatura no estado em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea. Hoje ele é um dos heróis do Ceará.
Depois de um banho no hotel, retornamos para jantar em uma feirinha que acontece junto ao Centro Cultural Dragão do Mar, pois além de roupas, camisetas, calçados e bolsas, também tem muita comida que é servida de uma maneira interessante, você escolhe quatro pratos entre baião de dois, moqueca de arraia, vatapá de frango, paçoca de carne de sol, etc. (colocados em grandes panelas de barro) e paga cinco reais pelo prato. Como sobremesa, bolos e doces variados, sempre a base de macaxeira ou abóbora. Cerveja Longnet a 2,50.
Uma rápida visita a avenida Beira-mar para conhecer a Feira de Artesanato e um passeio em um trenzinho (um jipe rebocando dois vagõezinhos) encerraram o dia. A Feirinha é indicada para turistas por ter muitas lembrancinhas, camisetas e coisas assim. O que não for turístico compensa comprar no Mercadão e, principalmente, nas ruas entre o mercado e a Praça dos Leões.
Neste trenzinho aconteceram fatos interessantes. Cada composição era acompanhada de figurantes fantasiados de personagens infantis da Turma da Mônica ou de Disney que durante o trajeto ficavam pulando, dançando e brincando com quem passava na calçada. Uma mãe estava desesperada (quase histérica) para trocar de trenzinho porque no outro estaria uma personagem que ela adora (princesa Fiona do Shrek), ela gritava: Fiona, te adoro! Outro mico, desta vez nosso, aconteceu porque, como precisávamos de informações, puxei assunto com o Pluto e ele me forneceu informações muito boas, mas o engraçado foi ver o Pluto com sotaque cearense. A Ana ria ao me ver conversando sério com o Pluto.
*Viagem à Fortaleza realizada em 2008. Ana Paula e Neucy