No engenho ‘O Bari’ situado na beira da CE-040, conhecemos o processo mais primitivo para a fabricação da rapadura. Fomos recebidos com um refrescante e doce copo de garapa, mais escura e saborosa do que a que estamos acostumados em São Paulo e com uma infinidade de amostras de rapaduras, com coco, natural, castanha, etc.
Notamos uma coisa preocupante, a falta de dentes na população. No engenho as moças eram bonitas e usavam roupas boas, no hotel, na casa de sucos, em muitos lugares notamos a falta de dentes frontais (como o que eu perdi e fiz implante). Pela naturalidade com que ostentam a banguela ficamos com a impressão de que isto é comum, apenas uma impressão nossa. As praias de hoje, Fontes e Morro Branco, estão na mesma cidade, Beberibe.
A praia das Fontes recebe este nome por apresentar fontes de água doce procedentes de uma grande lagoa que existe atrás das dunas (mais um parque eólico) e cuja água infiltra na areia brotando na praia. O assédio me pareceu menor ou já me acostumei, não sei. Em todo caso passamos reto pelo local reservado a turistas e continuamos andando apesar dos avisos de que “por ali só existem casas de veraneio e nada para ver”, puro engano! Há menos de um quilometro de distância avistamos um aviso - as fontes são aqui - grafado de maneira rústica em uma placa. Eram mesmo. Paramos o carro na antiga da vila e fomos até a praia. Em uma barraca simples encontramos uma jovem mãe e seu filho que dormia na rede. Não sabemos seu nome, mas a barraca é bem perto das fontes. O peixe grelhado saiu por 26 reais com umas cervejas e sorvete de cajá, sorvete não, picolé. Você pergunta se tem sorvete e eles respondem que “tem não, tem picolé”.
Enquanto esperávamos pelo peixe aproveitei para entrar na água e em seguida tomar um banho nas pequenas bicas de água doce. A praia é mansa e quente, uma delícia. A Ana também fez o mesmo. A famosa praia do Morro Branco tem este nome porque existe um farol na parte alta das dunas que vistas do mar se assemelham a morros brancos. Encontramos várias construções irregulares que fecham a praia - é necessário subir uma íngreme e interminável escada para alcançarmos a parte alta da cidade.
A vila é conhecida pelos recipientes com areia colorida formando desenhos e logo encontramos artesãos vendendo estas garrafinhas e vidrinhos. Junto a eles um garoto de 17 anos de nome Junior se apresentou como guia turístico para nos acompanhar em um passeio dentro do labirinto das areias coloridas. Ele não cobra, você dá o que acha que vale o trabalho dele (ouvi isto em Cumbuco). Aceitamos o guia por ele ser mais velho do que as crianças que oferecem tal serviço e acertamos, ele demonstrou conhecer muita coisa e depois se abriu, contou que voltou a estudar (havia parado ao concluir o ensino fundamental) pois quer entrar para a Marinha - onde deposita a única esperança de futuro. Relatou as dificuldades pelas quais passam pescadores locais, como o seu pai, que enfrentam uma concorrência desleal com o que ele chamou de “barcos de ferro”.
Aprendemos com o nosso jovem guia que os artesãos não retiram areia deste local por ser preservado, mas de outra praia antes das Fontes com limitação da quantidade; que o Mandacaru tem raízes de até cinco metros de profundidade e por isso sobrevivem na caatinga assim como a Palma Forrageira; que as rendeiras utilizam os espinhos do Mandacaru para prender as rendas enquanto estas são trançadas, pois eles não enferrujam com a maresia, ao contrário dos alfinetes metálicos (eu vi algumas rendeiras da Prainha usando alfinetes).
O labirinto das areias coloridas apresenta ao por do sol uma gama de cores muito bonitas.
O por do sol no Ceará é maravilhoso.
A noite fomos à feirinha de artesanato na avenida Beira-Mar e achamos castanhas de caju do tipo A por 18 reais o quilo, existem outras mais baratas mas são quebradas e manchadas. No geral a feira é boa e encontramos muita coisa para turistas. Artistas de rua se apresentam para vender CDs e DVDs, compramos um DVD e descobrimos algo quase trash. Compramos uma jangada - apesar de estarmos sem dinheiro -, o vendedor pediu o nome do hotel e o quarto para ir cobrar depois, deixamos o dinheiro na portaria do hotel na manhã seguinte, isto tudo com direito a um desconto de 10 reais no preço inicial de 35 reais. A jangadinha é bem feita e vale o preço. Uma coisa que atormenta nesta feira são os vendedores de pacotes turísticos para as próximas férias em determinados hotéis a troco de uma mesa de petiscos. Vimos isto no Beach Park só que era um empreendimento imobiliário. Vimos também no primeiro dia junto ao Píer dos Ingleses.